Hélio Oiticica
(1937-1980) foi um dos mais importantes artistas brasileiros dos últimos tempos.
Sua obra é internacionalmente renomada e foi uma das que se mais destacaram
entre aquelas que trouxeram o elemento de contemporaneidade à arte brasileira,
antes predominantemente ligada à arte moderna.
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| CC1 - Trashiscapes |
No período em que residiu em Nova York, na década de 1970, elaborou, em
parceria com seu amigo e cineasta, Neville d’Almeida, uma série de cinco “instalações” (este termo
ainda nem existia na época, o que ressalta ainda mais o vanguardismo de
Oiticica) chamada Cosmococas: programa in progress. Cada instalação, denominada
por ele como bloco-experiência e representada pela sigla CC (Cosmococa) seguida do seu número de série, é composta por elementos multimídia (slides acompanhados por trilha sonora) e ligados ao ócio e lazer humano (como piscina, colchões,
balões, chão macio e redes). Este ambiente foi elaborado de modo a proporcionar
ao espectador o que o artista chamava de experiência suprassensível, que seria,
segundo ele, um dilatamento dos sentidos aliada a uma expansão da consciência
do indivíduo, enfim, uma sensação muito análoga àquela proporcionada pelo uso
de substâncias psicotrópicas. Esta viagem proposta pelos autores também se
encaixava nos anseios que Oiticica tinha de interagir com o espectador, que ele
preferia ver como um participador da sua obra, buscando uma libertação do
comportamento do mesmo das amarras e dos condicionamentos a que ele é submetido
em uma sociedade que prima pela produção e pela racionalidade. A sua arte é ainda
mais libertária à medida que deixa a critério do espectador, dentro de uma
cosmococa, a escolha do seu próprio caminho rumo ao descondicionamento ou ao centro criativo interior que há em cada
um de nós.
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| Foto de CC4 - Nocagions |
Tanto Hélio Oiticica quanto Neville d’Almeida, à época da elaboração de
Cosmococas: programa in progress, eram usuários despreocupados de cocaína. Até
hoje essa obra gera controvérsias por onde passa por conta de abordar um tema, costumeiramente
tratado pela sociedade com rigorosa seriedade e rigidez, num tom de brincadeira,
leveza e descontração. Na verdade, os
autores passaram longe de querer fazer algum tipo de apologia da droga. A
presença da cocaína era apenas um
instrumento, um pigmento branco que atendia, no contexto das instalações, a propósitos
maiores e muito mais amplos. Nos slides projetados nas paredes, fotos de objetos (como livros) e imagens de famosas
personalidades são maquiadas com o pó da coca. São as mancoquilagens: palavra,
derivada da mistura de maquilagem com Manco Capac (nome do herói mítico da
civilização inca que trouxe a folha de coca para dar força a este povo), que
designava a atividade de espalhar a cocaína por sobre os objetos e desenhá-los
com as carreiras.
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| Marilyn Monroe "mancoquilada" em foto de slide de CC3 -Maileryn |
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| Rosto de Jimi Hendrix "mancoquilado" em foto de slide de CC5 -Hendrix-War |
Por fim, cabe lembrar que os inventores das cosmococas vivam em uma
época bastante emblemática do século XX, permeada pelos contextos da Guerra
Fria, da ditadura militar no Brasil e, principalmente, do fenômeno da contracultura
nos Estados Unidos, que, em consonância com os propósitos libertários do
universo de Hélio Oiticica, trouxe à tona questões que causavam certa
indigestão à sociedade de até então, que diziam respeito, em geral, à
libertação dos comportamentos (seja no sexo, na política, dentro da família, na vida).
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| Foto de CC5- Hendrix-War |
(Um pequeno vídeo com o depoimento do co-autor das cosmococas, Neville d'Almeida)
Para saber mais sobre Hélio Oiticica:
Lucas Henrique.






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