quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A cocaína nas artes visuais: Hélio Oiticica e as Cosmococas


Hélio Oiticica (1937-1980) foi um dos mais importantes artistas brasileiros dos últimos tempos. Sua obra é internacionalmente renomada e foi uma das que se mais destacaram entre aquelas que trouxeram o elemento de contemporaneidade à arte brasileira, antes predominantemente ligada à arte moderna.

CC1 - Trashiscapes
No período em que residiu em Nova York, na década de 1970, elaborou, em parceria com seu amigo e cineasta, Neville d’Almeida,  uma série de cinco “instalações” (este termo ainda nem existia na época, o que ressalta ainda mais o vanguardismo de Oiticica) chamada Cosmococas: programa in progress. Cada instalação, denominada por ele como bloco-experiência e representada pela sigla CC (Cosmococa) seguida do seu número de série, é composta por elementos multimídia  (slides acompanhados por trilha sonora) e  ligados ao ócio  e lazer humano (como piscina, colchões, balões, chão macio e redes). Este ambiente foi elaborado de modo a proporcionar ao espectador o que o artista chamava de experiência suprassensível, que seria, segundo ele, um dilatamento dos sentidos aliada a uma expansão da consciência do indivíduo, enfim, uma sensação muito análoga àquela proporcionada pelo uso de substâncias psicotrópicas. Esta viagem proposta pelos autores também se encaixava nos anseios que Oiticica tinha de interagir com o espectador, que ele preferia ver como um participador da sua obra, buscando uma libertação do comportamento do mesmo das amarras e dos condicionamentos a que ele é submetido em uma sociedade que prima pela produção e pela racionalidade. A sua arte é ainda mais libertária à medida que deixa a critério do espectador, dentro de uma cosmococa, a escolha do seu próprio caminho rumo ao descondicionamento  ou ao centro criativo interior que há em cada um de nós.

Foto de CC4 - Nocagions
Tanto Hélio Oiticica quanto Neville d’Almeida, à época da elaboração de Cosmococas: programa in progress, eram usuários despreocupados de cocaína. Até hoje essa obra gera controvérsias por onde passa por conta de abordar um tema, costumeiramente tratado pela sociedade com rigorosa seriedade e rigidez, num tom de brincadeira, leveza e descontração.  Na verdade, os autores passaram longe de querer fazer algum tipo de apologia da droga. A presença  da cocaína era apenas um instrumento, um pigmento branco que atendia, no contexto das instalações, a propósitos maiores e muito mais amplos. Nos slides projetados nas paredes, fotos de  objetos (como livros) e imagens de famosas personalidades são maquiadas com o pó da coca. São as mancoquilagens: palavra, derivada da mistura de maquilagem com Manco Capac (nome do herói mítico da civilização inca que trouxe a folha de coca para dar força a este povo), que designava a atividade de espalhar a cocaína por sobre os objetos e desenhá-los com as carreiras.

Marilyn Monroe "mancoquilada" em foto de slide de CC3 -Maileryn
Rosto de Jimi Hendrix "mancoquilado" em foto de slide de CC5 -Hendrix-War
Por fim, cabe lembrar que os inventores das cosmococas vivam em uma época bastante emblemática do século XX, permeada pelos contextos da Guerra Fria, da ditadura militar no Brasil e, principalmente, do fenômeno da contracultura nos Estados Unidos, que, em consonância com os propósitos libertários do universo de Hélio Oiticica, trouxe à tona questões que causavam certa indigestão à sociedade de até então, que diziam respeito, em geral, à libertação dos comportamentos (seja no sexo, na política, dentro da família, na vida). 
Foto de CC5- Hendrix-War

(Um pequeno vídeo com o depoimento do co-autor das cosmococas, Neville d'Almeida)

Para saber mais sobre Hélio Oiticica:



Lucas Henrique.

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