Desde os primórdios da vida humana, o homem testou todos os tipos de planta em sua busca por comida e sobrevivência. Algumas os nutriram, outras, que eles encontraram, os curaram, e outras os mataram. Algumas, para a surpresa deles, tinham estranhos efeitos em suas mentes e corpos, parecendo levá-los para outros mundos. Chamamos essas plantas de alucinógenas, porque elas distorcem os sentidos e comumente produzem alucinações. A palavra alucinação significa, em linguagem médica, percepção sem objetivo; isto é, a pessoa que está em processo de alucinação percebe coisas sem que elas existam. Assim, quando uma pessoa ouve sons imaginários ou vê objetos que não existem, ela está tendo uma alucinação auditiva ou alucinação visual. A grande maioria dos alucinógenos causam experiências visuais, porém, há ainda casos em que diversos sentidos são alterados em conjunto.
O que provoca a alucinação de fato são as substâncias químicas presentes nas plantas. Essas substâncias não são narcóticos verdadeiros. Estritamente e etimologicamente falando, um narcótico é uma substância que têm um efeito depressivo, leve ou alto, no sistema nervoso central. Em termos legais, narcótico é qualquer tipo de substância cujo uso é proibido ou permitido somente com prescrição médica, porém, contrariamente à opinião popular, nem todos os narcóticos são perigosos e viciantes. Narcóticos que induzem alucinações são normalmente chamados de alucinógenos (geradores de alucinações), psicomiméticos (imitadores da psiquê), e psicodélicos (manifestadores da mente).
Na história do gênero humano, alucinógenos têm sido talvez os mais importantes de todos os narcóticos. Os seus efeitos fantásticos os fizeram sagrados para os povos primitivos e até mesmo pode ter feito surgir nele a ideia de divindade. O mais famoso dos alucinógenos com significância religiosa é o cacto peiote. Os índios norte-americanos acreditavam que Peiote era um deus, ou pelo menos um mensageiro dos deuses, enviado à terra para comunicar-se diretamente com o adorador. Diz a lenda que o cacto peiote foi descoberto quando um homem havia se perdido no deserto. Faminto, ele encontrou o cacto e uma voz que emanava da planta lhe disse que deveria comê-lo. O homem recuperou a sua força e retornou à seu vilarejo, levando o presente divino a seu povo. A história de Peiote pode ser traçada por até 3 milênios: espécimes psicoativos de peiote foram recuperados de cavernas e abrigos de pedra no norte do Texas com pelo menos 3000 anos de idade. Um ritual era feito, no qual um quarto da semente oriunda desta planta era torrado, até obter uma coloração dourada e assim era dada à pessoa, causando um delírio de até 3 dias.
“Ser sacudido para fora das raízes da percepção ordinária, e ser mostrado, por horas infindáveis, o mundo interior e exterior, não como eles aparecem a um animal obcecado com a sobrevivência ou um homem obcecado com palavras e noções, mas como eles são apreendidos, direta e incondicionalmente, por uma Mente à Solta (Mind at Large) – esta é a experiência de inestimável valor para todos, e em especial para o intelectual.”
Aldos Huxley, The Doors of Perception, 1954.
Nos EUA, o uso de peiote é apenas aceito em cerimônias religiosas da Native American Church (ou peiotismo, uma religião dos índios norte-americanos) sendo considerado legal.
Alucinógenos permeiam apectos da vida nas sociedades primitivas. Eles ocupam um papel de destaque quando o assunto é doença, guerra, viagens, caça e agricultura, afetando também as relações entre indivíduos, vilas e tribos. Acreditava-se que os alucinógenos influenciavam também na vida após a morte.
O uso médico e religioso de plantas alucinógenas são particularmente importantes nas sociedades primitivas. Aborígenes atribuem a doença e a saúde ao trabalho das forças espirituais. Consequentemente, toda “medicina” que pode transportar os homens para o mundo espiritual é considerada por muitos aborígenes melhor do que qualquer efeito físico.
As forças psíquicas também vêm sido atribuídas aos alucinógenos e têm sido uma parte integral nas religiões primitivas. Em todo o mundo plantas alucinógenas são usadas como mediadoras entre os homens e Deus. As profecias do Oráculo de Delfo, o lugar mais sagrado de toda a Grécia antiga, são ditas terem sido influenciadas por alucinógenos.
Estátua de Xochipilli, o “Príncipe das flores” Asteca, descoberto nas encostas do vulcão Popocatepetl e agora exposto no Museu Nacional na Cidade do México. As etiquetas indicam as possíveis interpretações botânicas das figuras.
Na América do Sul, muitas tribos tomam ayahuasca (ver postagem anterior) para prever o futuro, visualizar disputas, decifrar planos inimigos, produzir ou retirar feitiços, ou comprovar a fidelidade da esposa. Sensações de morte e separação do corpo e alma são algumas vezes experimentados durante um transe.
No México, a Datura, planta cujo nome vem do hindu "dhát", um veneno preparado com plantas, e "tatorah", entorpecente, é utilizada na divinação, profecia, e cura ritualística.
Esta planta também está presente da literatura, no livro "A Erva do Diabo" de Carlos Castañeda:
"-- A erva-do-diabo tem quatro cabeças; a raiz, a haste e as folhas, as flores e as sementes. Cada qual é diferente, e quem a tornar sua aliada tem de aprender a respeito delas nessa ordem. A cabeça mais importante está nas raízes. O poder da erva-do-diabo é conquistado por meio de suas raízes. A haste e as folhas são a cabeça que cura as moléstias; usada direito, essa cabeça é uma dádiva para a humanidade. A terceira cabeça fica nas flores, e é usada para tornar as pessoas malucas ou para fazê-las obedientes, ou para matá-las. O homem que tem a erva por aliada nunca absorve as flores, nem mesmo a haste e as folhas, a não ser no caso de ele mesmo estar doente; mas as raízes e as sementes são sempre absorvidas; especialmente as sementes, que são a quarta cabeça da erva-do-diabo e a mais poderosa das quatro".
Os Mixtecs do México comem puffballs para escutar vozes do paraíso que respondem às suas perguntas. Os Waikás do Brasil e Venezuela aspiram a resina em pó de uma árvore da floresta para ritualizar a morte, induzir um estado de transe para diagnosticar doenças, e agradecer aos espíritos por uma vitória em uma guerra. Os médicos indígenas Peruvianos tomam cimora para fazer eles mesmos portadores de outras identidades. Índios do oeste do Brasil tomam jurema para ter visões gloriosas dos espíritos dos mundos antes de partir para batalhas com os seus inimigos, ritual também relatado na literatura através da obra de José Alencar, "Iracema".
Fontes:
http://psiquiatriaetoxicodependencia.blogspot.com.br/2010/04/mescalina-e-peiote-o-santo-daime-dos.html
http://mundocogumelo.com/2013/09/13/plantas-alucinogenas-informacoes-gerais/
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-era-o-oraculo-de-delfos
http://psiquiatriaetoxicodependencia.blogspot.com.br/2010/04/mescalina-e-peiote-o-santo-daime-dos.html
http://mundocogumelo.com/2013/09/13/plantas-alucinogenas-informacoes-gerais/
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/o-que-era-o-oraculo-de-delfos
Raquel Malta

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